"Qual o sentido da vida?" Você provavelmente já deve ter se perguntado isso alguma vez. No entanto, algumas pessoas
acham que essa é uma pergunta sem importância, e saem a viver suas vidas, lutando contra seus desafios como quem abre
caminho entre o mato fechado. Aqui você irá descobrir a importância que tem para as pessoas essa questão, bem como
descobrirá que, para a Psicologia, inclusive, esse assunto poderá ser fundamental.

terça-feira, 5 de julho de 2016

A Prisão

Imagine que você foi condenado à prisão perpétua, tendo que passar o resto da vida sozinho em uma sala fechada. Em uma das paredes há uma janela pequena, mas não há nada de interessante na paisagem. Além disso, há duas portas: uma delas leva a um banheiro apertado e sujo; a outra está sempre fechada, mas é por um espaço ali que alguém lhe coloca comida, água, ou o que for muito necessário. Você não receberá visitas, e ninguém conversará com você. Enfim, imagine um lugar assim, com apenas o mínimo necessário à sua sobrevivência.

Contudo, imagine que alguém tenha lhe dado apenas uma regalia: livros. Uma estante é colocada em sua cela, e um local para ler. Você terá acesso à um catálogo digital, pelo qual poderá solicitar qualquer outro livro que lhe interessar. Sob essas condições, eu lhe pergunto: como você passará os próximos anos de sua vida (até morrer)?

Vamos analisar as possibilidades. Passar a vida lendo parece ser uma opção óbvia, mas não a única, pois existem outras. Você também poderia fazer exercícios físicos, ou poderia se deitar e dormir a maior parte do tempo. Você também poderia fazer castelos de livros, ou poderia rasgar páginas e fazer origamis. Você poderia cantar, dançar, refletir ou filosofar. E também poderia tirar a própria vida, caso nada lhe agradasse.

No entanto, certo é que você não poderá tocar violão, porque você não tem um violão. E também não poderá surfar no mar, porque você não está no mar. Enfim, algumas coisas você tem, outras, não. Além dessa limitação de possibilidades, você sabe que não durará mais do que qualquer ser humano dura, e calcula mais uns 50 anos pela frente.

Apesar de lhe ser dito para pensar que você passaria o resto da sua vida trancafiado nesta sala, se você estivesse lá, não teria certeza do futuro. E isso lhe faria acreditar na remota esperança de um dia sair de lá. Você não seria humano se não pensasse assim, não é verdade? Sim, e isso também abrange a proposta inicial de você se imaginar nessa situação, já que você é um ser humano.

Agora, considerando tudo isso, quero que você me responda: você conseguiria ser feliz? Enfim, seja lá o que você pense como resposta, gostaria de informar-lhe que, infelizmente, a vida que você tem neste momento não difere essencialmente da que eu te pedi para imaginar. Parece uma ideia pessimista, e não deixa de ser. Mas é real, e sobre o real é o que importa agora refletir-mos.

Paralelamente, pois, quais as possibilidades que lhe foram dadas para viver? Sobre isso, pergunte-se assim. Você nasceu em uma família com qual poder aquisitivo? Que criação você teve? Que pessoas criaram-lhe? Em que cidade você nasceu? Que brinquedos seus pais puderam dar-lhe? Em que escolas você estudou? O quão favorável foi-lhe a genética? Todos esses fatores, entre outros, explicam muito sobre quem você se tornou.

A reflexão, até aqui, leva-nos para a antiga discussão sobre o livre-arbítrio. Sobre isso, já tratei em outras teorias, não é o objetivo aqui. De qualquer forma, pode-se chegar à ideia de que pelo menos boa parte do que você se tornou é consequência de fatores externos, independentes de sua vontade. Ou seja, se podemos fazer escolhas, ou se as escolhas feitas já estavam tomadas pelo desencadeamento natural de causas e consequências, deixando-nos apenas com a ilusão de que a tomamos, não importa discutir neste momento. Fato parece ser que temos limites externos a nossa vontade, como se estivéssemos em uma prisão.

Da mesma forma, parece óbvio que escolheremos realizar as atividades que nos colocam como possíveis. No caso imaginado, para você, que provavelmente gosta de ler, pareceu óbvia a tendência a escolher passar o tempo lendo, livro após livro. Isso se dá pela tendência que temos de fazer aquilo que nos dá prazer. E nada da proposta pareceu dar mais prazer do que a leitura. Contudo, se, além dos livros, fosse-lhe ofertada a possibilidade de jogar videogames, sendo-lhe ofertados todos os jogos possíveis, por catálogo, aposto como muitas pessoas tornar-se-iam jogadores compulsivos ao longo do tempo. Mesmo quem não costume jogar atualmente, com certeza experimentará, entre uma leitura e outra. Experimentando, jogará mais progressivamente. Difícil competir.

Isso é semelhante ao uso de drogas. Imagine se, ao invés dos jogos, fosse cerveja, de todos os tipos possíveis. Qual a probabilidade de você se tornar um alcoolista? A vida é assim. Precisamos ter boas opções na vida. Os que não as possuem, apresentam maior propensão aos vícios. E, quando digo "vícios", aqui, refiro-me a tudo o que gera prazer de forma imediata, não apenas a drogas. E pior: se a sua vida não fizer sentido, por que os vícios seriam ruins? Talvez, nesse caso, eles sirvam justamente para que nos seja menos doloroso sobreviver. Por isso a importância em se refletir e encontrar um sentido, um rumo. Sabendo para onde vai, fica mais fácil discernir o bom do ruim.

Tem uma passagem de Alice no País das Maravilhas que trata disso. Alice está perdida, há vários caminhos possíveis. Então, ela encontra o gato, e pergunta-lhe "para onde leva este caminho?" E o gato pergunta "para onde você quer ir?" Alice responde "não sei, estou perdida". E o gato, "se você não sabe para onde quer ir, qualquer caminho serve". Ou seja, a mesma ideia ressaltada aqui, sobre a importância de se encontrar um rumo na vida. A capacidade de vislumbrarmos o futuro torna-nos mais eficientes na busca pelo que queremos, seja o que for.

Enfim, sua vida é uma prisão, mas uma prisão maior e com mais possibilidades do que aquela. Dentro das possibilidades, você escolhe o que fazer, seja esse poder de escolha real ou ilusório. Além disso, parece que há outras pessoas convivendo no presídio, então, nossas escolhas podem afetar uns aos outros. Os mais individualistas chamarão a prisão de "vida", acreditando que os outros fazem parte de suas possibilidades. Suas vidas, assim, tem menos sentido do que a daqueles que acreditam não estar sozinhos. Há coisas que nunca saberemos mesmo. Assim, também nossas convicções tornam-se possibilidades. Umas ou outras nos farão sentir melhor ou pior. A escolha também é sua.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Dicas de leitura para quem deseja estudar Psicologia por conta própria


Gosto muito de estudar Psicologia por conta própria. Mesmo depois de formado, continuo me dedicando arduamente todos os dias, principalmente, com o objetivo de passar em concursos públicos. Indo atrás das bibliografias indicadas nos editais, uma de minhas estratégias foi dar prioridade para aquelas leituras que costumam aparecer com maior frequência, os quais deveriam ser tidos como mais importantes, mais confiáveis etc. Assim, surgiu a ideia de escrever um pouco sobre alguns desses livros, como indicações, não apenas para se preparar para concursos, mas também para quem deseja estudar Psicologia por conta própria: estudantes de graduação; graduados; afins.

O primeiro que apresento se chama "Teorias da Personalidade", de Calvin S. Hall, Gardner Lindzey e John B. Campbell, pela editora Artmed. Esse livro é como um compêndio sobre as principais teorias da personalidade, as quais foram agrupadas neste quatro grupos:
-Teorias com ênfase na psicodinâmica (Freud, Jung, Adler, Fromm, Horney e Sullivan, Erikson);
-Teorias com ênfase na estrutura da personalidade (Murray, Allport, Cattel, Eysenck);
-Teorias com ênfase na realidade percebida (Lewin, Kelly, Goldstein, Maslow, Rogers);
-Teorias com ênfase na aprendizagem (Skinner, Dollard e Miller, Bandura, Mischel).
Comecei por essa indicação porque é o que eu estou lendo no momento. Apesar de ser um livro grande, não é necessário ler o livro inteiro e do início ao fim de forma corrida. Eu, por exemplo, li o capítulo um, o qual faz uma introdução sobre teorias da personalidade, depois li a introdução de cada uma das quatro ênfase, para ter uma ideia geral sobre todas as teorias, li a conclusão, e agora vou ler apenas as partes que eu achar importante, ao longo do tempo. No próximo concurso, cairá algo sobre Terapia Cognitivo-Comportamental. Por isso, começarei lendo a seção sobre teorias com ênfase na aprendizagem. Além disso, sei que logo terei que ler sobre as psicodinâmicas. Quem só pretende aprender Psicologia e não sabe por onde começar, minha sugestão é que leia, principalmente, além das introduções, como disse, os principais autores (sugiro começar por Freud, Rogers e Skinner).


O segundo livro que indico é o "Manual Conciso de Psiquiatria Clínica", presente em muitas bibliotecas e livrarias. Para mim, trata-se do melhor livro para se aprender psicopatologia e psicofarmacologia. Nele, apresenta-se o principal do que se deve saber sobre os principais transtornos mentais catalogados oficialmente, bem como sobre os medicamentos empregados pela psiquiatria. É de fácil leitura, é bem escrito e o melhor é que, apesar de ser um livro grande, pode ser usado para se ler parte por parte, de acordo como convier.

O terceiro livro é o "Psicoterapias: Abordagens Atuais", de Aristides Volpato Cordioli. Também é um livro grande, porém, apresenta no primeiro capítulo um resumo de todas as psicoterapias e, acredite, quase todas as questões de bancas que pediram o livro foram tiradas literalmente desse primeiro capítulo. Então, se você está recém começando a estudar, comece lendo apenas o primeiro capítulo, depois vá estudar outras coisas, e só depois leia o resto, se desejar.

Por enquanto, concluo a postagem por aqui. No entanto, pretendo adicionar outros livros mais adiante.

L.M.L.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Hormônios da Felicidade?




Sempre aprendi que a Serotonina (pelo menos a usada no cérebro) seria um neurotransmissor produzido nos Núcleos da Rafe, neurônios cerebrais. Ok, até pode ser que haja muita serotonina sendo produzida no intestino, mas, essa serotonina não consegue entrar no cérebro, pela barreira hematoencefálica. Enfim, não quero me ater a essas desinformações por enquanto. Quero refletir, especificamente, sobre a expressão "hormônios da felicidade".

Seria muito bom se pudéssemos tomar "hormônios" (nem diria que a Serotonina é um hormônio, mas ok) que nos trouxessem felicidade. Do jeito que está escrito nessa tampa de iogurte, parece que, tomando-o, regularizamos nosso intestino, o qual poderia fabricar mais "hormônios da felicidade", tornando-nos felizes. Ohh!! Preciso desse iogurte!! Vou resolver todos os problemas da minha vida!! 

Preciso escrever mais sobre o assunto?
Ok, fico por aqui.

P.S.: Use seu cérebro ao ler tampas de iogurte, não seu intestino. ;) Ah, só mais uma coisa... Serotonina demais pode diminuir muito o desejo sexual. Isso, vai tomando esse iogurte...(risos)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

O Rumo Certo na Vida



Só tenho a dizer uma coisa para a vida:



"Prefiro morrer no caminho certo, a viver no erro."



          Não tenho medo da morte, pois ela chegará de qualquer maneira, e não pedirá permissão para entrar. Tenho medo de não ser feliz enquanto viver. E ser feliz tem a ver com trilhar o caminho certo. Como encontrar esse caminho? Ah, cada um tem o seu, pode apostar. Mas, como encontrar é outra história. Aqui, apenas trato de uma certeza: se encontrares o teu, siga-o, sem olhar para os precipícios que, por ventura, passem-lhe ao lado. Não temas a morte. Vida curta, ou longa, não importa. O que vale é manter-se no rumo.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Reflexões sobre o Problema Mente-Corpo



*Este texto foi originalmente escrito por mim no ano de 2008, como um trabalho acadêmico para uma cadeira de Filosofia no curso de Psicologia. Reli há pouco, concordei com tudo o que havia proposto, fiz algumas correções e decidi postá-lo. Não tem diretamente a ver com o estudo da felicidade, porém, faz parte das minhas teorias sobre a psique humana. O que é esse sentimento de estar vivo? O que é a mente? O que nos diferencia dos outros animais ou de seres não vivos? Espero aqui deixar meu posicionamento a esse respeito.


O cérebro é o local da mente?

          Ainda nos permeia a hipótese de que o ser humano é o único ser dotado de “mente”. Vamos analisar essa proposta com cuidado, esquecendo, por vez, daquelas ideias religiosas de que sabemos muito bem: que o homem é um ser especial aqui na Terra, feito à imagem e à semelhança de Deus, pois a nossa intenção aqui não é discutir religião. Aqui falamos de ciência, de lógica.
          Primeiramente, vamos analisar o que é fato. Sabemos que o cérebro humano não é muito diferente, fisicamente, do cérebro de qualquer animal (dos que tem cérebro, evidentemente), diferindo somente quanto à complexidade. Mesmo os que não tem cérebro apresentam algum tipo de relação nervosa, constituída por neurônios (à exceção de seres microscópicos, uni ou multicelulares) que também seguem o mesmo princípio dos neurônios humanos. Conhecemos o princípio básico de transmissão de dados em um neurônio, e nada tem nele de imaterial.
           Também não podemos deixar de considerar que, desde Darwin, temos prova de que o ser humano evoluiu do “macaco” (na verdade, de um outro primata – de qualquer maneira, descendemos de um ser comum). Se formos analisar a história da evolução, todos os seres vivos da Terra descenderam de um único ser, sofrendo gradativas e quase imperceptíveis mutações.
           A partir de que momento, então, poderíamos dizer que o ser humano adquiriu sua “alma”? Se a mudança de animal para humano fora gradativa, deveria haver um momento em que um “animal” (um “macaco quase humano”) tivesse um filhote mutante que, pela mutação, teria adquirido mente. Caso estejamos nos referindo ao humano como os Homo sapiens sapiens, nosso ancestral mais recente (por um mísero detalhe, ainda não considerado homem) teria concebido um homem com mente. A ideia mostra-se, pois, absurda, sem lógica alguma.
           Alguns argumentariam dizendo que os animais não se comunicam. Comunicação eles tem, sem dúvida alguma, isso já é algo provado e todo biólogo sabe disso. Não desenvolveram, é claro, nenhuma linguagem tão complexa como a nossa, porém, não deixa de haver linguagem em sua comunicação. Um bom exemplo é o de um grupo de macacos. Eles desenvolveram vários tipos de sons (gritos com entonações diferentes) que correspondem cada um a um tipo de aviso. Quando uma cobra se aproxima do grupo de macacos, aquele que a avista primeiro grita o som correspondente e os outros já sabem do perigo. Sem dúvida, nenhuma outra linguagem é tão complexa como a nossa, no entanto, não podemos dizer que elas não existam ou não seguem os mesmos princípios.
           Outros argumentariam dizendo que eles não têm sentimentos, não amam, por exemplo. Como poderíamos dizer que um animal não é capaz de amar? Talvez o amor seja um sentimento tão complexo que somente os humanos teriam desenvolvido. É possível, mas devemos averiguar com mais atenção esse caso. Como poderíamos saber que os homens amam caso não tivéssemos a linguagem para dizer “eu te amo”? Poderíamos, talvez, observar algumas características em alguém, uma necessidade de estar sempre junto da outra pessoa, por exemplo. Bom, um chimpanzé também pode se apegar a um humano desse jeito, assim como sabemos de pessoas que amam animais. Como definiríamos exatamente o amor? Isso não é algo exato. Em outras palavras, o argumento de que os animais não têm sentimentos torna-se vago demais para ser levado a sério. Além do mais, mesmo que os animais fossem incapazes de terem sentimentos tão complexos como os dos humanos, isso não prova que eles não tenham alma, ao menos que eles fossem desprovidos de qualquer sentimento. Mas, eles não sentem frio? Não sentem dor? Um cão não parece alegre de vez em quando? Como não dizer que se trata de alegria? A conclusão que se tira dessa primeira etapa é a de que, se temos mente, então, todos os animais também a têm.

           Muitos costumam dizer que temos “alma” (nesse aspecto seria o mesmo que “mente”). Existe um método de pensar que exclui totalmente a alma do corpo. Sinta a sua boca. Como você sabe que ela pertence a você? Porque você sente, através dos seus nervos, informações como a tonicidade dos músculos, o sabor provindo das papilas gustativas, o contato com o meio externo provindo da pele. Agora, imagine se algum dia (e isso é possível) fosse descoberto um método de ligar nervos. Desconectam-se, então, os nervos provindos da boca de uma pessoa e os conecta nos devidos terminais da boca de uma outra. O resultado seria que a pessoa dona da boca conectada comeria um chocolate e a pessoa que sentiria todo o seu sabor seria a outra. Poderia se fazer outros testes semelhantes: cortar a coluna a nível cervical e conectar todos os devidos terminais da parte sensitiva em outra pessoa. O resultado seria que uma pessoa iria correr e não sentir que estava correndo (claro, a situação é mais complexa do que se imagina), enquanto a outra estaria parada, mas estaria sentindo como se estivesse correndo. E para aqueles que diriam ser impossível uma interconexão entre dois indivíduos, devemos lembrá-los dos transplantes.
           A alma, pois, não tem nenhuma conexão direta com o corpo, senão, num transplante de órgãos, o órgão doado viria acompanhado com um pedaço de alma do indivíduo doador. E se o doador morresse antes da pessoa que recebeu o órgão (o que geralmente acontece), então, esse órgão deveria morrer também. Além do mais, hoje em dia há cientistas que fabricam órgãos em laboratório. É uma tecnologia ainda nova, não muito utilizada, mas já é real. A partir de células-tronco (humanas, pois é com humanos o experimento), cria-se um órgão novo (células essas que resistem congeladas por muitos anos – mais anos até do que qualquer humano resiste).

           Sabemos que os neurônios estão diretamente envolvidos com o processo de pensar. Muitos testes modernos provam e, inclusive, especificam a correspondência de cada parte do cérebro com determinados tipos de processamentos neurológicos. Outrossim, hoje já é possível ver a decisão que uma pessoa vai tomar segundos antes de essa decisão se tornar consciente, por meio de aparelhos. Se a mente, então, existe, deveria estar relacionada com os neurônios.
           O problema da “ponte anfíbia” já nos fornece um bom argumento. Segundo ele, se a mente e o cérebro (que comanda o corpo pelo sistema nervoso) são de naturezas diferentes, então algo só poderia pertencer a um ou a outro, e nunca aos dois ao mesmo tempo. Que “ponte anfíbia” seria essa que transpassa informações de um lado a outro? Evidentemente, não haveria sentido algum se os dois meios não pudessem se relacionar, pois que mente seria essa que independe de corpo? Por que estaria fixa, então? Por que não vagaria por aí livremente? Portanto, deveria estar fixa ao cérebro.
           Vejamos, para tanto, outro experimento. Todos os nossos sentimentos e sensações são processados, mais especificamente, por nosso Sistema Nervoso Central (SNC). Imagine se um dia inventassem um meio de transferir as informações nervosas pelo ar, por ondas, como celular. Isso não é nada impossível, basta conectar a um axônio (“extremidade de ‘fio’ condutor nervoso” – parte da célula nervosa) um aparelho eletrônico que identifique o sinal nervoso (diferença de potencial entre os íons de sódio e potássio entre o meio externo e o meio interno da célula, como sabemos – mais detalhes podem ser achados em qualquer livro de neurofisiologia), transfira o sinal por ondas eletromagnéticas ao outro terminal correspondente do aparelho, conectado à continuação do mesmo axônio. Os problemas quanto a esse experimento são mais técnicos (físicos), ou seja, nada que os impeçam de um dia existir. Dessa maneira, sabendo que nosso SNC se comunica com o corpo por meio de 12 pares de nervos cranianos e 31 pares de nervos espinhais, poderíamos proceder rompendo todos os nervos de uma pessoa, fazendo essa “ponte eletromagnética” em cada um deles. Impedindo que as células morram por falta de sangue (de alguma maneira, que aqui também não é importante), poderíamos arrancar de uma pessoa seu SNC e deixá-lo guardado, enquanto essa pessoa sairia por aí normalmente. E o problema que surge é: onde ficaria a mente dessa pessoa? Junto com o SNC ou junto com o corpo? O dono desse SNC poderia nem saber que sua cabeça está oca, pois quem informa ao cérebro seu equilíbrio, sua posição, a tonicidade dos músculos, são “aparelhos” biológicos que estão fixos ao corpo da pessoa. Então, à princípio, não faz diferença onde esteja o cérebro dessa pessoa. Em contrapartida, se alguém destrói esse cérebro (a quilômetros de distância, talvez), essa pessoa vai morrer. No entanto, se o corpo dessa pessoa morre, o cérebro continuaria vivo, embora desprovido de sensações (senão, possivelmente, sensações imaginárias e “fantasmas”). Poderíamos, então, conectar esse SNC a outro corpo tranquilamente. Seria como se um dia acordássemos no corpo de outra pessoa. Assim, só morreríamos quando as células do SNC morressem (e morrem aos poucos). E, se um dia alguém descobrir um modo de renovar as células cerebrais, talvez poderíamos viver por muito mais tempo, embora com vários corpos, segundo a possibilidade hipotética descrita.
           Enfim, se essa ideia de “mente” (como uma entidade à parte, no sentido de alma) está associada ao sentimento de “estou aqui”, então, está errada, pois acabamos de ver como poderíamos sentir que “estamos aqui” sem de fato estar (nossa mente estaria lá num cérebro guardado em um lugar muito distante). Caso muitas pessoas fizessem esse experimento, sequer poderíamos pegar um cérebro na mão e dizer: esse é o meu cérebro, pois todos seriam tão parecidos. Como dizer que nossa mente está lá? Simplesmente, não está. E se essa “mente” não está no corpo, não está no cérebro, então, não existe. Não no sentido de uma entidade à parte.
           O que seria, portanto, esse sentimento de “estar aqui”? Na verdade, esse sentimento é uma impressão. Nosso cérebro é capaz de processar tantas informações, e cruzá-las tão complexamente, dentro desse emaranhado de fibras nervosas, com cerca de 86 bilhões de neurônios, que temos essa impressão de vida. O que se pode perguntar, a partir dessas inferências, é se as máquinas, por conseguinte, teriam consciência. As máquinas e computadores de hoje em dia são tão complexos quanto um caracol, porém, como no caso do caracol, também não se pode dizer que eles não tenham consciência. Pois, o que é consciência senão o recebimento e a associação de informações do meio externo? Devemos lembrar, para ser mais esclarecedor, do filme “Inteligência Artificial”, o qual trata desse tema. Se fosse criado um robô tão perfeito que pudesse ter sentimentos (e até amar), como poderíamos dizer que ele não tem consciência? Poderia não ser uma vida biológica, mas quem disse que toda vida deve ser biológica? A vida só é naturalmente biológica porque a única evolução possível fora essa. E, pensando bem, pela evolução, a primeira vida veio de algo que não tinha vida, o que tira essa ideia de que uma vida só pode ser criada a partir de algo com vida, ou a partir da vida. Além do mais, se toda a vida viesse de outra vida, então, esse processo se repetiria infinitamente do passado ao futuro, o que contrariaria tudo o que se acredita na Física contemporânea. Assim como um coração doado é capaz de voltar a bater, e um órgão do corpo pode ser substituído por um órgão de material não biológico, por que, no caso do cérebro, que é um órgão como qualquer outro, não haveria de ser igual? Apenas seria exigido um grau de complexidade maior, somente isso. E isso sugere que é possível criar um ser vivo a nossa semelhança, bem como sugere que as máquinas não deixam de ser seres vivos.
           E o que dizer das sensações imaginárias? Ou seja, as sensações que temos pelo pensamento. Por exemplo, quando imaginamos estar numa praia, tocando os pés na areia morna, escutando o som do mar ao lado etc. Pois bem, como imaginar o mar sem nunca o ter visto nem em fotos? Pode-se perguntar a um cego de nascença o que ele enxerga em seus pensamentos. Será que ele enxerga algo? Claro que não. Mas, é claro, isso não o impede de ter noções espaciais, advindas de outros sentidos apenas. O mesmo se pode afirmar em relação aos outros sentidos. Todo cérebro humano normal tem potencial para usá-los, porém, a falta de qualquer informação advinda do mundo externo o deixa sem material de trabalho, como uma indústria sem matéria prima, é incapaz de produzir algo. E, quando células não são usadas, elas atrofiam e morrem. Nesse sentido, se se vendar os olhos de uma criança desde o nascimento, completamente, por muitos anos, mesmo que se lhe tire a venda depois, ela poderá não enxergar mais, ou ter perdas graves e permanentes de visão. O potencial vai se perdendo paulatinamente. Mas ele está lá, no início, pois, se a venda for tirada em pouco tempo, a criança começa a enxergar, como a visão de um recém-nascido (embora com as outras percepções mais adiantadas interferindo no processo). Portanto, as percepções apresentam um potencial de bases biológicas, no cérebro, mas, para consolidarem-se e desenvolverem-se, precisam ser usadas, associadas umas as outras.
          Pensando melhor ainda, a “vida” como a concebemos não deve existir. Pois, o que é vida? Segundo os biólogos (“estudantes da vida”), a vida é inerente ao ser vivo. E os seres vivos são os que apresentam células. O vírus, por exemplo, não seria vida, segundo essa ideia. Vê-se, facilmente, que o conceito dos biólogos parece não passar de uma simples classificação, sem, pois, nenhuma busca por rigor filosófico.
Em suma, provamos que a vida é um conceito criado por nós mesmos, que, de fato, não serve para diferenciar algo vivo de algo sem vida. Provamos, também, a inexistência da mente como uma entidade à parte e, consequentemente, da alma, do espírito, ou de qualquer desses conceitos semelhantes. A mente, portanto, não passa de uma mera impressão, criada pelo mundo dos sentidos corpóreos em uma mente pensante. O difícil é aceitar essa verdade, e esse é um dos motivos pelo qual o homem sempre tentou desviar a atenção para explicações místicas e religiosas, criando a ideia de alma.


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Acrescento em 11/12/13:

Acabei de ler um artigo muito interessante, o qual reflete sobre a Psicologia como uma "Ciência Social". Nesse texto, o autor coloca o século anterior como o século da Psicologia e questiona se este século que se inicia será também assim. Então, ele apresenta a possibilidade de que haja uma mudança, que este século possa se tornar o século da neurobiologia. Enfim, para que fique mais claro, cito um fragmento do texto, localizado na conclusão do artigo:

O corpo biológico é agora crescentemente tido como o assento de nossos problemas e o alvo de trabalhos éticos de melhoria do indivíduo. Na visão de alguns, ao menos, nós ultrapassamos o dualismo cartesiano em cima do qual a psicologia se apoiava - mente é apenas o que o cérebro faz. (ROSE, 2008)



Não tenho como objetivo fazer aqui um resumo do texto. Porém, para quem se interessou, recomendo ler esse artigo. E, disponibilizo a referência abaixo.

ROSE, Nikolas. Psicologia como uma ciência social. Psicologia & Sociedade, v. 20, n. 2, p. 155-164, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/psoc/v20n2/a02v20n2.pdf. Acesso em 11 de dezembro de 2013.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Algumas Definições Importantes


*Deixo aqui estes recortes de literatura, tão importantes para quem estuda a felicidade. Abaixo de cada um encontra-se a referência.


Felicidade (etimologia): a origem deste vocábulo vem do latim antigo felix (genitivo felicis), que originalmente significava fértil, frutuoso (aquilo que dá frutos), fecundo. Assim, posteriormente felix passou a designar feliz, afortunado, satisfeito, alegre. Para Sócrates, como para todos os filósofos gregos, o segredo de tudo é a felicidade. A palavra grega para designar o sentimento de felicidade é eudaimonia, que, literalmente, significava em boa (= eu) situação no que se refere a daimons (demônios ou espíritos). Desse [sic] modo, felicidade é viver com bons espíritos, sendo que os antigos filósofos não definiam o que consideravam "bons espíritos"; antes, eles se referiam a espíritos que estão fora ou dentro da pessoa.

ZIMERMAN, David E. Etimologia de Termos Psicanalíticos. Porto Alegre, RS: Artmed, 2012. p. 135-136.


ALEGRIA. […] Uma das emoções fundamentais do homem, conforme tradicionalmente enumeradas, mais precisamente a que consiste numa sensação agradável e difusa, decorrente da previsão de um bem superveniente. […]
A definição de A. permaneceu substancialmente a mesma nos filósofos modernos. […]

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 6.ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. p. 25.


VIRTUDE (para Aristóteles): É o que apresenta o ser humano que desempenha bem sua função. É o que torna bom o ser humano.

Há dois tipos de virtude: 1) virtude intelectual – Gera-se e cresce pelo ensino. Por exemplo: sabedoria filosófica, compreensão, sabedoria prática. 2) virtude moral – É adquirida com o hábito. Por exemplo: liberalidade, temperança, coragem, espirituosidade, calma, magnanimidade, magnificência.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: BORNHEIM, Gerd. et al. (trad.) Aristóteles. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1984. v. 2.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

El cerebro feliz




          Ótimo vídeo sobre a forma como o cérebro processa piadas e nos permite rir.