"Qual o sentido da vida?" Você provavelmente já deve ter se perguntado isso alguma vez. No entanto, algumas pessoas
acham que essa é uma pergunta sem importância, e saem a viver suas vidas, lutando contra seus desafios como quem abre
caminho entre o mato fechado. Aqui você irá descobrir a importância que tem para as pessoas essa questão, bem como
descobrirá que, para a Psicologia, inclusive, esse assunto poderá ser fundamental.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Reflexões sobre o Problema Mente-Corpo



*Este texto foi originalmente escrito por mim no ano de 2008, como um trabalho acadêmico para uma cadeira de Filosofia no curso de Psicologia. Reli há pouco, concordei com tudo o que havia proposto, fiz algumas correções e decidi postá-lo. Não tem diretamente a ver com o estudo da felicidade, porém, faz parte das minhas teorias sobre a psique humana. O que é esse sentimento de estar vivo? O que é a mente? O que nos diferencia dos outros animais ou de seres não vivos? Espero aqui deixar meu posicionamento a esse respeito.


O cérebro é o local da mente?

          Ainda nos permeia a hipótese de que o ser humano é o único ser dotado de “mente”. Vamos analisar essa proposta com cuidado, esquecendo, por vez, daquelas ideias religiosas de que sabemos muito bem: que o homem é um ser especial aqui na Terra, feito à imagem e à semelhança de Deus, pois a nossa intenção aqui não é discutir religião. Aqui falamos de ciência, de lógica.
          Primeiramente, vamos analisar o que é fato. Sabemos que o cérebro humano não é muito diferente, fisicamente, do cérebro de qualquer animal (dos que tem cérebro, evidentemente), diferindo somente quanto à complexidade. Mesmo os que não tem cérebro apresentam algum tipo de relação nervosa, constituída por neurônios (à exceção de seres microscópicos, uni ou multicelulares) que também seguem o mesmo princípio dos neurônios humanos. Conhecemos o princípio básico de transmissão de dados em um neurônio, e nada tem nele de imaterial.
           Também não podemos deixar de considerar que, desde Darwin, temos prova de que o ser humano evoluiu do “macaco” (na verdade, de um outro primata – de qualquer maneira, descendemos de um ser comum). Se formos analisar a história da evolução, todos os seres vivos da Terra descenderam de um único ser, sofrendo gradativas e quase imperceptíveis mutações.
           A partir de que momento, então, poderíamos dizer que o ser humano adquiriu sua “alma”? Se a mudança de animal para humano fora gradativa, deveria haver um momento em que um “animal” (um “macaco quase humano”) tivesse um filhote mutante que, pela mutação, teria adquirido mente. Caso estejamos nos referindo ao humano como os Homo sapiens sapiens, nosso ancestral mais recente (por um mísero detalhe, ainda não considerado homem) teria concebido um homem com mente. A ideia mostra-se, pois, absurda, sem lógica alguma.
           Alguns argumentariam dizendo que os animais não se comunicam. Comunicação eles tem, sem dúvida alguma, isso já é algo provado e todo biólogo sabe disso. Não desenvolveram, é claro, nenhuma linguagem tão complexa como a nossa, porém, não deixa de haver linguagem em sua comunicação. Um bom exemplo é o de um grupo de macacos. Eles desenvolveram vários tipos de sons (gritos com entonações diferentes) que correspondem cada um a um tipo de aviso. Quando uma cobra se aproxima do grupo de macacos, aquele que a avista primeiro grita o som correspondente e os outros já sabem do perigo. Sem dúvida, nenhuma outra linguagem é tão complexa como a nossa, no entanto, não podemos dizer que elas não existam ou não seguem os mesmos princípios.
           Outros argumentariam dizendo que eles não têm sentimentos, não amam, por exemplo. Como poderíamos dizer que um animal não é capaz de amar? Talvez o amor seja um sentimento tão complexo que somente os humanos teriam desenvolvido. É possível, mas devemos averiguar com mais atenção esse caso. Como poderíamos saber que os homens amam caso não tivéssemos a linguagem para dizer “eu te amo”? Poderíamos, talvez, observar algumas características em alguém, uma necessidade de estar sempre junto da outra pessoa, por exemplo. Bom, um chimpanzé também pode se apegar a um humano desse jeito, assim como sabemos de pessoas que amam animais. Como definiríamos exatamente o amor? Isso não é algo exato. Em outras palavras, o argumento de que os animais não têm sentimentos torna-se vago demais para ser levado a sério. Além do mais, mesmo que os animais fossem incapazes de terem sentimentos tão complexos como os dos humanos, isso não prova que eles não tenham alma, ao menos que eles fossem desprovidos de qualquer sentimento. Mas, eles não sentem frio? Não sentem dor? Um cão não parece alegre de vez em quando? Como não dizer que se trata de alegria? A conclusão que se tira dessa primeira etapa é a de que, se temos mente, então, todos os animais também a têm.

           Muitos costumam dizer que temos “alma” (nesse aspecto seria o mesmo que “mente”). Existe um método de pensar que exclui totalmente a alma do corpo. Sinta a sua boca. Como você sabe que ela pertence a você? Porque você sente, através dos seus nervos, informações como a tonicidade dos músculos, o sabor provindo das papilas gustativas, o contato com o meio externo provindo da pele. Agora, imagine se algum dia (e isso é possível) fosse descoberto um método de ligar nervos. Desconectam-se, então, os nervos provindos da boca de uma pessoa e os conecta nos devidos terminais da boca de uma outra. O resultado seria que a pessoa dona da boca conectada comeria um chocolate e a pessoa que sentiria todo o seu sabor seria a outra. Poderia se fazer outros testes semelhantes: cortar a coluna a nível cervical e conectar todos os devidos terminais da parte sensitiva em outra pessoa. O resultado seria que uma pessoa iria correr e não sentir que estava correndo (claro, a situação é mais complexa do que se imagina), enquanto a outra estaria parada, mas estaria sentindo como se estivesse correndo. E para aqueles que diriam ser impossível uma interconexão entre dois indivíduos, devemos lembrá-los dos transplantes.
           A alma, pois, não tem nenhuma conexão direta com o corpo, senão, num transplante de órgãos, o órgão doado viria acompanhado com um pedaço de alma do indivíduo doador. E se o doador morresse antes da pessoa que recebeu o órgão (o que geralmente acontece), então, esse órgão deveria morrer também. Além do mais, hoje em dia há cientistas que fabricam órgãos em laboratório. É uma tecnologia ainda nova, não muito utilizada, mas já é real. A partir de células-tronco (humanas, pois é com humanos o experimento), cria-se um órgão novo (células essas que resistem congeladas por muitos anos – mais anos até do que qualquer humano resiste).

           Sabemos que os neurônios estão diretamente envolvidos com o processo de pensar. Muitos testes modernos provam e, inclusive, especificam a correspondência de cada parte do cérebro com determinados tipos de processamentos neurológicos. Outrossim, hoje já é possível ver a decisão que uma pessoa vai tomar segundos antes de essa decisão se tornar consciente, por meio de aparelhos. Se a mente, então, existe, deveria estar relacionada com os neurônios.
           O problema da “ponte anfíbia” já nos fornece um bom argumento. Segundo ele, se a mente e o cérebro (que comanda o corpo pelo sistema nervoso) são de naturezas diferentes, então algo só poderia pertencer a um ou a outro, e nunca aos dois ao mesmo tempo. Que “ponte anfíbia” seria essa que transpassa informações de um lado a outro? Evidentemente, não haveria sentido algum se os dois meios não pudessem se relacionar, pois que mente seria essa que independe de corpo? Por que estaria fixa, então? Por que não vagaria por aí livremente? Portanto, deveria estar fixa ao cérebro.
           Vejamos, para tanto, outro experimento. Todos os nossos sentimentos e sensações são processados, mais especificamente, por nosso Sistema Nervoso Central (SNC). Imagine se um dia inventassem um meio de transferir as informações nervosas pelo ar, por ondas, como celular. Isso não é nada impossível, basta conectar a um axônio (“extremidade de ‘fio’ condutor nervoso” – parte da célula nervosa) um aparelho eletrônico que identifique o sinal nervoso (diferença de potencial entre os íons de sódio e potássio entre o meio externo e o meio interno da célula, como sabemos – mais detalhes podem ser achados em qualquer livro de neurofisiologia), transfira o sinal por ondas eletromagnéticas ao outro terminal correspondente do aparelho, conectado à continuação do mesmo axônio. Os problemas quanto a esse experimento são mais técnicos (físicos), ou seja, nada que os impeçam de um dia existir. Dessa maneira, sabendo que nosso SNC se comunica com o corpo por meio de 12 pares de nervos cranianos e 31 pares de nervos espinhais, poderíamos proceder rompendo todos os nervos de uma pessoa, fazendo essa “ponte eletromagnética” em cada um deles. Impedindo que as células morram por falta de sangue (de alguma maneira, que aqui também não é importante), poderíamos arrancar de uma pessoa seu SNC e deixá-lo guardado, enquanto essa pessoa sairia por aí normalmente. E o problema que surge é: onde ficaria a mente dessa pessoa? Junto com o SNC ou junto com o corpo? O dono desse SNC poderia nem saber que sua cabeça está oca, pois quem informa ao cérebro seu equilíbrio, sua posição, a tonicidade dos músculos, são “aparelhos” biológicos que estão fixos ao corpo da pessoa. Então, à princípio, não faz diferença onde esteja o cérebro dessa pessoa. Em contrapartida, se alguém destrói esse cérebro (a quilômetros de distância, talvez), essa pessoa vai morrer. No entanto, se o corpo dessa pessoa morre, o cérebro continuaria vivo, embora desprovido de sensações (senão, possivelmente, sensações imaginárias e “fantasmas”). Poderíamos, então, conectar esse SNC a outro corpo tranquilamente. Seria como se um dia acordássemos no corpo de outra pessoa. Assim, só morreríamos quando as células do SNC morressem (e morrem aos poucos). E, se um dia alguém descobrir um modo de renovar as células cerebrais, talvez poderíamos viver por muito mais tempo, embora com vários corpos, segundo a possibilidade hipotética descrita.
           Enfim, se essa ideia de “mente” (como uma entidade à parte, no sentido de alma) está associada ao sentimento de “estou aqui”, então, está errada, pois acabamos de ver como poderíamos sentir que “estamos aqui” sem de fato estar (nossa mente estaria lá num cérebro guardado em um lugar muito distante). Caso muitas pessoas fizessem esse experimento, sequer poderíamos pegar um cérebro na mão e dizer: esse é o meu cérebro, pois todos seriam tão parecidos. Como dizer que nossa mente está lá? Simplesmente, não está. E se essa “mente” não está no corpo, não está no cérebro, então, não existe. Não no sentido de uma entidade à parte.
           O que seria, portanto, esse sentimento de “estar aqui”? Na verdade, esse sentimento é uma impressão. Nosso cérebro é capaz de processar tantas informações, e cruzá-las tão complexamente, dentro desse emaranhado de fibras nervosas, com cerca de 86 bilhões de neurônios, que temos essa impressão de vida. O que se pode perguntar, a partir dessas inferências, é se as máquinas, por conseguinte, teriam consciência. As máquinas e computadores de hoje em dia são tão complexos quanto um caracol, porém, como no caso do caracol, também não se pode dizer que eles não tenham consciência. Pois, o que é consciência senão o recebimento e a associação de informações do meio externo? Devemos lembrar, para ser mais esclarecedor, do filme “Inteligência Artificial”, o qual trata desse tema. Se fosse criado um robô tão perfeito que pudesse ter sentimentos (e até amar), como poderíamos dizer que ele não tem consciência? Poderia não ser uma vida biológica, mas quem disse que toda vida deve ser biológica? A vida só é naturalmente biológica porque a única evolução possível fora essa. E, pensando bem, pela evolução, a primeira vida veio de algo que não tinha vida, o que tira essa ideia de que uma vida só pode ser criada a partir de algo com vida, ou a partir da vida. Além do mais, se toda a vida viesse de outra vida, então, esse processo se repetiria infinitamente do passado ao futuro, o que contrariaria tudo o que se acredita na Física contemporânea. Assim como um coração doado é capaz de voltar a bater, e um órgão do corpo pode ser substituído por um órgão de material não biológico, por que, no caso do cérebro, que é um órgão como qualquer outro, não haveria de ser igual? Apenas seria exigido um grau de complexidade maior, somente isso. E isso sugere que é possível criar um ser vivo a nossa semelhança, bem como sugere que as máquinas não deixam de ser seres vivos.
           E o que dizer das sensações imaginárias? Ou seja, as sensações que temos pelo pensamento. Por exemplo, quando imaginamos estar numa praia, tocando os pés na areia morna, escutando o som do mar ao lado etc. Pois bem, como imaginar o mar sem nunca o ter visto nem em fotos? Pode-se perguntar a um cego de nascença o que ele enxerga em seus pensamentos. Será que ele enxerga algo? Claro que não. Mas, é claro, isso não o impede de ter noções espaciais, advindas de outros sentidos apenas. O mesmo se pode afirmar em relação aos outros sentidos. Todo cérebro humano normal tem potencial para usá-los, porém, a falta de qualquer informação advinda do mundo externo o deixa sem material de trabalho, como uma indústria sem matéria prima, é incapaz de produzir algo. E, quando células não são usadas, elas atrofiam e morrem. Nesse sentido, se se vendar os olhos de uma criança desde o nascimento, completamente, por muitos anos, mesmo que se lhe tire a venda depois, ela poderá não enxergar mais, ou ter perdas graves e permanentes de visão. O potencial vai se perdendo paulatinamente. Mas ele está lá, no início, pois, se a venda for tirada em pouco tempo, a criança começa a enxergar, como a visão de um recém-nascido (embora com as outras percepções mais adiantadas interferindo no processo). Portanto, as percepções apresentam um potencial de bases biológicas, no cérebro, mas, para consolidarem-se e desenvolverem-se, precisam ser usadas, associadas umas as outras.
          Pensando melhor ainda, a “vida” como a concebemos não deve existir. Pois, o que é vida? Segundo os biólogos (“estudantes da vida”), a vida é inerente ao ser vivo. E os seres vivos são os que apresentam células. O vírus, por exemplo, não seria vida, segundo essa ideia. Vê-se, facilmente, que o conceito dos biólogos parece não passar de uma simples classificação, sem, pois, nenhuma busca por rigor filosófico.
Em suma, provamos que a vida é um conceito criado por nós mesmos, que, de fato, não serve para diferenciar algo vivo de algo sem vida. Provamos, também, a inexistência da mente como uma entidade à parte e, consequentemente, da alma, do espírito, ou de qualquer desses conceitos semelhantes. A mente, portanto, não passa de uma mera impressão, criada pelo mundo dos sentidos corpóreos em uma mente pensante. O difícil é aceitar essa verdade, e esse é um dos motivos pelo qual o homem sempre tentou desviar a atenção para explicações místicas e religiosas, criando a ideia de alma.


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Acrescento em 11/12/13:

Acabei de ler um artigo muito interessante, o qual reflete sobre a Psicologia como uma "Ciência Social". Nesse texto, o autor coloca o século anterior como o século da Psicologia e questiona se este século que se inicia será também assim. Então, ele apresenta a possibilidade de que haja uma mudança, que este século possa se tornar o século da neurobiologia. Enfim, para que fique mais claro, cito um fragmento do texto, localizado na conclusão do artigo:

O corpo biológico é agora crescentemente tido como o assento de nossos problemas e o alvo de trabalhos éticos de melhoria do indivíduo. Na visão de alguns, ao menos, nós ultrapassamos o dualismo cartesiano em cima do qual a psicologia se apoiava - mente é apenas o que o cérebro faz. (ROSE, 2008)



Não tenho como objetivo fazer aqui um resumo do texto. Porém, para quem se interessou, recomendo ler esse artigo. E, disponibilizo a referência abaixo.

ROSE, Nikolas. Psicologia como uma ciência social. Psicologia & Sociedade, v. 20, n. 2, p. 155-164, 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/psoc/v20n2/a02v20n2.pdf. Acesso em 11 de dezembro de 2013.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Algumas Definições Importantes


*Deixo aqui estes recortes de literatura, tão importantes para quem estuda a felicidade. Abaixo de cada um encontra-se a referência.


Felicidade (etimologia): a origem deste vocábulo vem do latim antigo felix (genitivo felicis), que originalmente significava fértil, frutuoso (aquilo que dá frutos), fecundo. Assim, posteriormente felix passou a designar feliz, afortunado, satisfeito, alegre. Para Sócrates, como para todos os filósofos gregos, o segredo de tudo é a felicidade. A palavra grega para designar o sentimento de felicidade é eudaimonia, que, literalmente, significava em boa (= eu) situação no que se refere a daimons (demônios ou espíritos). Desse [sic] modo, felicidade é viver com bons espíritos, sendo que os antigos filósofos não definiam o que consideravam "bons espíritos"; antes, eles se referiam a espíritos que estão fora ou dentro da pessoa.

ZIMERMAN, David E. Etimologia de Termos Psicanalíticos. Porto Alegre, RS: Artmed, 2012. p. 135-136.


ALEGRIA. […] Uma das emoções fundamentais do homem, conforme tradicionalmente enumeradas, mais precisamente a que consiste numa sensação agradável e difusa, decorrente da previsão de um bem superveniente. […]
A definição de A. permaneceu substancialmente a mesma nos filósofos modernos. […]

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. 6.ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012. p. 25.


VIRTUDE (para Aristóteles): É o que apresenta o ser humano que desempenha bem sua função. É o que torna bom o ser humano.

Há dois tipos de virtude: 1) virtude intelectual – Gera-se e cresce pelo ensino. Por exemplo: sabedoria filosófica, compreensão, sabedoria prática. 2) virtude moral – É adquirida com o hábito. Por exemplo: liberalidade, temperança, coragem, espirituosidade, calma, magnanimidade, magnificência.

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. In: BORNHEIM, Gerd. et al. (trad.) Aristóteles. Coleção Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1984. v. 2.